A crise do raciocínio lógico

Postado por em abril 8, 2017 em Artigos Técnicos, Materiais para Ler e Baixar | 0 comentários

A crise do raciocínio lógico

A crise do raciocínio lógico – Por Heitor Borba

 

Lidar com pessoas que não pensam[1] é sem dúvida uma tarefa árdua, estressante e com alta demanda de tempo e energia inúteis.

Lógica é o ramo da Filosofia que cuida das regras do bem-pensar ou do pensar correto. A lógica é uma ferramenta do pensar. A aprendizagem da lógica não constitui um fim em si. Aprender lógica é utilizar essa ferramenta para garantir procedimentos corretos de pensamentos com fim de se chegar a conhecimentos verdadeiros. A lógica cuida para que os argumentos utilizados sejam acompanhados por evidências comprobatórias das alegações. Desse modo, as conclusões são sustentadas por um conjunto de evidências que constituem provas. O principal organizador da Lógica Clássica foi Aristóteles, com sua obra chamada Órganon.[2]

No seu cotidiano o ser humano utiliza os seguintes saberes:

SEM CONFIABILIDADE:

a)    Conhecimento resultante da percepção sensorial ou conhecimento sensível (subjetivo e sem confiabilidade);

b)    Conhecimento resultante da descrição superficial das coisas (vulgar e sem confiabilidade);

c)    Conhecimento direto ou imediato resultante da percepção de cada um (intuitivo e sem confiabilidade);

RELATIVAMENTE CONFIÁVEL

a)    Conhecimento lógico resultante da elaboração do entendimento (racional e relativamente confiável);

b)    Conhecimento resultante de uma cadeia de raciocínios lógicos (discursivo e relativamente confiável).

TOTALMENTE CONFIÁVEL

a)    Conhecimento que explica a razão de ser profunda das coisas (científico e totalmente confiável);

Analisando as decisões dos trabalhadores em qualquer sistema corporativo, podemos perceber que a maioria tende a utilizar o conhecimento confiável apenas quando há procedimentos operacionais escritos e fiscalizados. Fora disso, voltam a utilizar o conhecimento não confiável. E isso ocorre porque não foram ensinados a pensar, mas sempre aceitar o que os outros dizem. Exemplos: erva tal cura câncer em 16 dias, copo de água sobre a mesa retira energias negativas da casa, dentre outras bobagens. O problema é quando esses conhecimentos são aplicados no meio corporativo, colocando em risco pessoas e recursos físicos. A era Socrática prometia o abandono do mito em detrimento do pensamento lógico. Mas hoje percebemos o inverso: O mito vem substituindo o logos. E por que isso ocorre? Ocorre porque não há fomentação de pensamento nas escolas, investimentos em ciência e tampouco divulgação científica. Ainda há a intencional ausência do Estado preenchida pela religião que é utilizada na manipulação das massas com fins puramente pessoais e eleitorais.

Sempre achei estranho essa recém-inventada moda “Y”[3] masculina(?) de sair por aí com calça colada ao corpo, pernas forçosamente cambetas de modo a esfregar os joelhos um no outro, cabelo de tufinho, camisa baby look, boca sempre aberta enquanto masca chiclete e trejeitos duvidosos (tem gosto para tudo), apesar de ter um patrão adepto a essa moda (espero que ele não leia este artigo). Minha percepção é a de um visual horroroso e de gente que não inspira confiança (conhecimento subjetivo, vulgar e intuitivo). Mas isso não pode e nem deve interferir numa decisão corporativa. Apenas as evidências formadoras da prova como títulos, habilidades e experiências é que devem ser considerados.

Pois bem, hoje encontrei um colega que é profissional da área de gestão de pessoas e que estava muito preocupado com a falta de profissionais que pensam. Segundo ele, há uma dificuldade enorme de se conseguir profissionais honestos, comprometidos e… QUE PENSAM. Sendo assim, as empresas estão sendo obrigadas a contratar profissionais “menos ruins” em vez dos melhores. Isso faz lembrar nossas eleições que sempre chegam à reta final com dois candidatos ruins. Nesse caso, em vez de votar no “menos ruim”, o correto seria os eleitores anularem seus votos por falta de candidatos. Mas nas organizações não é assim. Ao contrário do meio político, as empresas de verdade (não públicas) possuem real necessidade de contratação de funcionários. E na maioria das vezes ter um funcionário “meia-culé” é melhor do que não ter nenhum.

Claro que há profissionais competentes em todas as áreas de atuação. O problema maior é quando as áreas de atuação são as de nível operacional. Aí a coisa complica. A tônica celetista de que “o empregador é obrigado a investir em sua mão de obra qualificada” fica difícil quando nos deparamos com a realidade de um população com 95% de analfabetos científicos e 92% de analfabetos funcionais.[4] E isso não é somente no campo operacional. Minha percepção  é que a CLT é excelente para os péssimos profissionais e uma madrasta para os bons profissionais. A falta de flexibilidade complica negociações vantajosas para o trabalhador. Como toda lei brasileira, serve mais para ajudar quem não merece do que quem merece.

É fácil perceber essa deficiência em reuniões corporativas, por exemplo, onde os participantes sempre fogem do foco e falam baboseiras. As decisões gerenciais, por sua vez, ocorrem de forma pontual, quando deveriam contemplar o todo da gestão, do sistema ou do processo. No operacional há perda de tempo e de matéria-prima com erros na utilização dos recursos. E não há como capacitar pessoas que não estão acostumadas a pensar ou não sabem pensar. As alegações contrárias ao sistema de gestão que se deseja implementar devem sempre vir acompanhadas por evidências que possam constituir provas.[5] Caso contrário, devem ser rejeitadas com as devidas explicações. Isso faz com que o crítico pense correto e exercite a lógica. Termos como: “eu acredito”, “eu acho” e outros devem ser banidos do vocabulário corporativo. Se há base evidenciais, mesmo que seja através de julgamentos técnicos,[6] não há porque utilizar esses termos. Se for para acreditar por acreditar basta mandar rezar uma missa ou coisa parecida. Vejo com frequência cartazes de empresa apresentando suas crenças. Crenças são coisas subjetivas e pessoais o que os outros têm a ver com isso? Missão, política e filosofia ainda dão para engolir (se bem que considero isso uma perda de tempo). Não sei as outras pessoas, mas essas mensagens não me passam credibilidade alguma. Por que em vez desse palavrório vazio as empresas não estabelecem metas? Já imaginou a credibilidade de uma empresa que estabelecesse metas para responsabilidade social e qualidade de vida dos empregados? Quantos trabalhadores da sua empresa moram em áreas de risco? Quantos deixaram crianças em postos de saúde públicos ardendo em febre para serem atendidas Deus sabe lá quando? E assim por diante. Em vez do palavrório bonito colocar: “Nossas metas: a) Implantar plano de saúde para todos os colaboradores até dezembro/2020; b) Implantar transporte coletivo ou individual para todos os trabalhadores até 2025; c)… Não seria bem mais claro, transparente, honesto, objetivo e acreditado? Nem tudo que os americanos inventam é bom para o Brasil. Temos que acabar com essa mania de copiar os americanos, deixarmos de ser politicamente idiotas e começar a criar coisas acreditadas. Sim, somos capazes. Claro que o empregador não vai, não pode e nem deve resolver todos os problemas sociais do País. Sendo assim, por que não excluir o palavrório bonito (mas vazio) e focar na realidade? A honestidade traz a credibilidade de forma natural. Sem dúvida que com a massificação das ISO e OHSAS da vida, objetivando tão somente aumentar a competitividade no mercado, houve um estouro de sistemas de qualidade, meio ambiente, segurança e saúde ocupacional do tipo para inglês ver. Sem o menor comprometimento do empregador com o sistema. Desse modo procuram enfeitar com “política”, “missão”, “crenças” e outras inutilidades. “Crenças” eu não sei, mas “missão” e “política” possuem algum valor apenas quando constituem formulações baseadas no pensamento estratégico e na cultura da organização, objetivando o gerenciamento funcional para que as ações sejam executadas de acordo com os objetivos desejados. A manutenção fiel aos focos estratégicos, processos, operacionalizações, pessoas e horizontes constituem formas das organizações manterem ou elevarem suas competências nos mercados em que atuam. Em contrapartida, basta apenas que a organização execute o que já temos na legislação e nas NBR brasileiras que não há necessidade de implantação desses sistemas.

Diante desse dilema, há necessidade urgente de modificação da forma de abordagem na gestão da organização, priorizando a honestidade, a realidade e a capacitação da massa trabalhadora, principalmente nos níveis gerenciais e operacionais. Os enfeites e os mitos devem ser postos de lado porque o mundo real não funciona dessa forma. Ensinar os funcionários a pensar e abandonar o mito não é tarefa fácil, considerando que há intenso endosso em tudo quanto é lido, ouvido e visto, inclusive em normas que deveriam ser Normas Técnicas. Mesmo com o Estado e algumas Normas impondo coisas inúteis, conhecer e aceitar a realidade da empresa e focar na solução dos problemas ainda é a melhor forma de se obter bons resultados. O foco no pensamento lógico, no racional, traz benefícios em mão dupla, evita surpresas desagradáveis, injustiças e comprovadamente funciona. E isso é o que importa.

Webgrafia:

[1] Pessoas que não pensam

Empresas estão cada vez mais preocupadas com a falta de profissionais que pensam.

[2] Lógica Clássica

http://brasilescola.uol.com.br/filosofia/logica-aristoteles.htm

[3] Geração “Y”

[4] Analfabetismo funcional e científico

Analfabetismo funcional: Um problema corporativo

Analfabetismo científico: Um problema não somente corporativo

[5] Prova e evidencia

Prova e evidencia

[6] Julgamentos técnicos

Planejamento estratégico baseado em julgamentos

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