Eficácia das máscaras caseiras

Postado por em abril 18, 2020 em Artigos Técnicos, Materiais para Ler e Baixar | 0 comentários

Eficácia das máscaras caseiras

Eficácia das máscaras caseiras – Por Heitor Borba

 

Após o então Ministro da Saúde (Mandetta) anunciar o uso das máscaras caseiras contra o coronavírus, que “podem ser feitas com qualquer tecido” [sic], acabou passando uma falsa segurança ao povo.

Em primeiro lugar o Ministério da Saúde não tem competência para deliberar sobre uso de EPR – Equipamentos de Proteção Respiratória ou PFF – Peças Faciais Filtrantes. O órgão competente é a FUNDACENTRO, que tem know-how para isso, apesar do INMETRO também está envolvido nesse processo. Os profissionais da saúde devem utilizar o respirador tipo PFF2 sem válvula ou N95. A máscara cirúrgica (da china não vale) deve ser utilizada apenas por pessoas portadoras da COVID-19. Quem não está doente e não é profissional de saúde não deve fazer uso de protetores respiratórios.

Em segundo lugar as máscaras caseiras (independente do material utilizado na confecção) não devem ser utilizadas e nem recomendadas como EPI, nos termos da NR-06.

As máscaras caseiras no máximo podem reduzir a energia cinética das gotículas ou partículas líquidas que são projetadas pela boca durante o processo da fala. Com isso, essas partículas atingem uma distância bem menor (de redução de apenas alguns centímetros), se não houver correntes de ar. As máscaras caseiras não filtram o coronavirus. Isso porque a trama do tecido precisaria possuir área menor do que o diâmetro do vírus. A partícula completa, ou vírion do coronavirus, apresenta-se com morfologia esférica, envelopada e com cerca de 100 a 160 nm (nanômetros) de diâmetro, ou 0,0001 mm (milímetros), ou 1mm/10.000. Os tecidos para camisetas (malha em algodão), recomendados pelo então Ministro, normalmente utiliza o tecido de 77 fios. A área de espaçamento da trama depende do diâmetro do fio. Utilizando microfibra, a abertura da malha será em torno de 0,025 mm (250 vezes maior que o vírus). É como jogar um trabalhador do alto de um edifício para ser amparado por uma rede de cordas com trama equivalente a 250 metros quadrados. Qual a possibilidade desse trabalhador ficar retido nessa rede? No caso dos aerossóis contaminadas com o coronavirus o tamanho total das partículas não muda muita coisa. As partículas que contêm vírus possuem diâmetro entre 0,01 μm e 0,3 μm (10-300 nm). Esta gama inclui o Vírus “nus” (apenas o ácido nucléico em torno da capa protéica) até clusters de vírus, tais como na tosse ou spray. Os sprays da tosse possuem partículas de 0,1 µm (0,0001 mm).

Outro problema que reduz ou mesmo neutraliza a eficiência de qualquer máscara ou mesmo PFF é a falta de uso de óculos de segurança com vedação ou aeração indireta (tipo ampla visão para produtos químicos). As partículas líquidas projetadas durante a fala atingem também os olhos e não somente a boca e o nariz. O coronavirus se reproduz milhões de vezes e a possibilidade de todas as gotículas expelidas estarem infectadas é grande. Desse modo, a possibilidade da nuvem de aerossol infectar os olhos também é grande.

Há pouca diferença entre a máscara PFF2 e o respirador N95. Os dois têm níveis de proteção equivalentes. Mas enquanto os respiradores N95 são testados e reconhecidos nos EUA pelo NIOSH, as máscaras com classificação PFF2 seguem a norma brasileira definida pela ABNT sob exigência da Secretaria do Trabalho. A N95 possui eficácia mínima de filtração de 95% e a PFF2 de 94%. Em resumo, o respirador N95 e a máscara PFF2 são EPIs ideais para os trabalhadores expostos a ambientes com contaminação aérea. Tanto um quanto o outro são reconhecidos por sua eficácia e garantem a segurança do usuário. Importante ressaltar que os profissionais de saúde deverão utilizar respiradores purificadores de ar N95 (aqui no Brasil equivale ao nosso PPF2 sem válvula) e óculos vedados. Além de descaracterizar o N95, o PFF2 com válvula possui eficiência reduzida. Por isso deve ser utilizado o PFF2 que não tem válvula. Procedimentos como intubação ou aspiração traqueal, ventilação não invasiva, ressuscitação cardiopulmonar e outros geradores de aerossóis devem ser realizados com uso de protetores faciais contra projeção de respingos na face, sobre os demais EPI.

A contaminação pelo coronavirus ocorre principalmente pelo contato com objetos ou superfícies contaminadas, cuja via principal são as mãos, que levam o vírus para a boca, nariz e olhos. A segunda forma de contaminação é através das partículas projetadas pelo espirro, tosse e fala. A tosse é mais difícil de controlar, mas o espirro é perfeitamente controlável. Para isso, basta morder a língua com força na hora do espirro que a vontade passa. Isso ocorre porque a mensagem da dor chega mais rápida ao cérebro e mascara o sinal nervoso do espirro. E a forma de contaminação mais difícil de evitar é sem dúvida a do vírus isolado no ar ou agregado a partículas muito pequenas (de maior possibilidade de ocorrência).

Por isso, o protocolo de prevenção ou medidas preventivas deve ser completo para poder ser eficiente e eficaz:

a)    Uso de respiradores PFF2 sem válvula ou N95 e óculos com vedação (indicado nesse momento para profissionais de saúde) e tipo cirúrgicas (indicadas nesse momento para pessoas de grupos de risco e doentes);

b)    Higienização das mãos e de todas as superfícies suspeitas de contaminação (não é recomendado o uso de luvas, considerando que as luvas devem ser higienizadas como se fossem as mãos);

c)    Abrir os vidros do veículo quando do transporte de outras pessoas (se você está sozinho no carro, está mais protegido com os vidros fechados e usando o ar interno);

d)    Seguir o protocolo de higienização na rua, em casa e quando chegar em casa.

A ANVISA, apesar de não ser órgão competente, publicou em caráter excepcional, RESOLUÇÃO DE DIRETORIA COLEGIADA – RDC Nº 356, DE 23 DE MARÇO DE 2020, com os requisitos mínimos necessários para os EPI a serem utilizados no combate ao coronavirus. Essa Resolução diz em seu artigo quinto, parágrafo quarto:

“§ 4° É proibida a confecção de máscaras cirúrgicas com tecido de algodão, tricoline, TNT ou outros têxteis que não sejam do tipo “Não tecido para artigos de uso odonto-médico- hospitalar” para uso pelos profissionais em serviços de saúde.

Qual a diferença entre a exposição de um profissional de saúde quando um paciente infectado tosse próximo a ele e a de outra pessoa?

Os protetores respiratórios que funcionam são fabricados com rigorosos critérios técnicos, científicos e legais. Muitos estudos são desenvolvidos para se chegar a uma Peça Facial Filtrante (PFF).

Para um leigo na área de Higiene Ocupacional, apenas apresentar algum tecido ou filtro de café que algum pesquisador comprovou que filtra equivalente a PFF2/N95 é suficiente para que esse material possa ser utilizado como Peça Facial Filtrante (PFF). No entanto, não é somente atestar cientificamente que um determinado tecido ou filtro de papel filtra tantos por cento das partículas nas dimensões tal e tal. Os conhecimentos e a visão prevencionista vão além das características físico-químicas dos materiais. Segurança do trabalho é algo mais complicado que isso e carece de várias áreas para que possa ser concretizada. Na verdade o que interessa não é o tecido (voal, organza, etc), mas o material de que é feito o fio, o diâmetro do fio e o tipo e características de trama (espaçamento, morfologia, uniformidade, estabilidade, etc). E a trama deve ser específica para respiradores. Não adianta ter um tecido que consiga filtrar as partículas e não possua ou não consiga manter as demais características quando em uso na forma de PFF.  A eficiência do filtro seria apenas o início desse processo. Para que um material possa ser utilizado como filtro de protetores respiratórios é necessário que uma equipe multidisciplinar verifique outros fatores como por exemplo, permeabilidade do tecido, gradiente de pressão em função da respiração, conforto respiratório, taxa de degradação, compatibilidade, corte a ser realizado, tamanho da peça, designer, costuras, vedação no rosto, grau de esgarçamento do tecido, duração da eficiência ao longo do tempo, elasticidade/pressão necessária dos elásticos de fixação no rosto, fatores interferentes como suor, saliva e movimentação do usuário, condições de uso em campo (o filtro de café, por exemplo, não pode ficar em contato com a pele), teste de retenção, teste de saturação, teste de respiração, etc Ainda há necessidade do tratamento eletrostático para que as partículas sejam atraídas pelas fibras do tecido ou TNT (Nenhuma PFF pode possuir aberturas tão pequenas ao ponto de filtrar mecanicamente as partículas porque  iria dificultar ou impedir a respiração. Por isso que as fibras recebem tratamento eletrostático para que possam atrair as partículas por diferença de polaridade elétrica). Apenas um diploma, seja lá de que for, não tem competência para deliberar sobre Equipamentos de Proteção Respiratória (EPR). Se fosse tão comprovado assim as indústrias de EPI já estariam utilizando esses tecidos em seus respiradores. E por que as indústrias de EPI não utilizam esses materiais com eficiência tão comprovada pelos ditos pesquisadores, cientistas e doutores? Simplesmente porque não passam nos testes para liberação do CA – Certificado de Aprovação ou selo do INMETRO. Basta uma variação no distanciamento da trama (causada pelo esgarçamento) de alguns milésimos de milímetros para perder toda a eficiência. Todos os EPI possuem o CA – Certificado de Aprovação/INMETRO/Normas Internacionais e laboratórios credenciados para executar os testes, verificar a eficiência e garantir que todo esse processo tenha sido cumprido.

A FUNDACENTRO, órgão científico do Ministério do Trabalho, responsável pelo desenvolvimento de pesquisas nessa área, possui muitos trabalhos sobre o assunto. Estranhamente, quando se trata de falar sobre essas máscaras ninguém cita esse órgão. Trabalhos excelentes como “Análise do Uso do Epi Máscara Facial Filtrante para Proteção contra Agentes Biológicos Transmitidos por Bioaerossóis em Relação ao Uso da Máscara Cirúrgica” e “Programa de Proteção Respiratória”, nunca são cooptados por esses especialistas. Que falta faz o Prof° Maurício Torloni.

Aqui você pode baixar o Manual de Especificações para Têxteis Médicos, incluindo máscaras cirúrgicas.

De qualquer forma, as máscaras caseiras são indicadas pelo Ministério da Saúde em caráter excepcional, frente a escassez de EPI no mercado, indicadas apenas para pessoas infectadas. O objetivo é reduzir as emissões de partículas emitidas pelo infectado. Como medida preventiva para o contágio não funcionam. Enquanto o uso de protetores respiratórios indica que o usuário está doente, o uso de protetores respiratórios em conjunto com óculos vedados indica que o usuário está exposto ao agente infeccioso (por trabalhar na saúde, ser de grupo de risco ou realizar atendimento ao público). E qualquer outra coisa nesse sentido é engodo e exposição da vida dos outros ao perigo.

Portanto, as máscaras caseiras não filtram ou impedem a passagem do coronavirus, mas apenas possibilitam a redução da energia cinética das partículas ou aerossóis projetados horizontalmente durante a fala, tosse ou espirro do usuário (e mesmo assim reduzem por apenas alguns centímetros e somente das partículas maiores). As partículas menores (aerossóis) e mais perigosas não são retidas pelas máscaras caseiras. O uso de qualquer respirador sem óculos vedados não adianta muita coisa porque a nuvem de aerossóis projetada atinge também os olhos. A velocidade do ar no local potencializa a projeção horizontal das partículas que podem estar contaminadas. Outro agravante é a alta permeabilidade dos tecidos utilizados na confecção da máscara, que não passam por tratamento químico específico para esse fim (filtro). Isso potencializa a exposição de pessoas não infectadas que utilizam a máscara. No caso de alguém espirrar próximo, as partículas líquidas projetadas na máscara grudam no tecido (pelo lado de fora). E em função de um gradiente de densidade, passam através do tecido e ficam em contato com as mucosas do usuário. Usar EPI e esquecer da higienização também não adianta muita coisa. Nesse contexto, as medidas de ordem administrativa ou de organização, como o isolamento social (para infectados e pessoas de grupos de risco) e o distanciamento social (para os demais), funcionam melhor que o uso de proteção individual.

Quem não está infectado e quer se proteger minimamente do coronavirus deve fazer uso de N95/PFF2 sem válvula, óculos vedados e protocolos de higienização. Mas isso não é recomendado porque não tem EPI para todo mundo e vai faltar para os mais expostos e vulneráveis. Com isso, alguns Estados e Municípios estão obrigando legalmente a população a utilizar as máscaras caseiras como EPI. Essa falsa segurança está aumentando o número de infectados nessas regiões. Já temos incompetências suficientes, não precisamos copiar erros dos outros. Na verdade, a proteção eficaz para pessoas expostas seria a da foto abaixo, com EPR de pressão positiva fornecida por um cilindro de ar (com os protocolos para higienização e retirada, claro). Mas sabemos que isso não é possível.

FOTO COLUNA RISCO QUÍMICO

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